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Eduardo

A história repete-se, as histórias repetem–se. Neste caso, sob o signo da morte.
Há semanas atrás, escrevi um texto sobre a morte de Bergman. Poucas horas depois, estava eu prestes a entrar num avião e telefonaram-me de uma estação de rádio a pedir um comentário acerca da morte de Antonioni. «Antonioni? Mas foi Bergman que morreu…». Por coincidência, Antonioni também tinha morrido. Uma morte que, aliás, eu já pressentia como próxima (mas não tanto assim) nesse texto entretanto desactualizado sobre Bergman – e que, por isso, tive de reescrever.
Ontem, começara a escrever sobre os dez anos da morte da princesa Diana, recordando uma minha crónica no Público por altura do acontecimento. E lembrava uma referência cúmplice de Eduardo Prado Coelho a propósito de uma passagem desse texto, onde ele detectara uma dimensão que me tinha escapado: a atracção sexual que também me (nos) despertava a personagem desaparecida. O Eduardo fazia parte, como eu, «dessa imensa multidão de amantes anónimos de Lady Di». Entretanto, hoje de manhã, fui acordado por um telefonema de uma agência noticiosa em que me informaram que o Eduardo tinha morrido.

São muitos os acasos, as coincidências, os laços que a morte tece. Agora, porque o Eduardo morreu, terei de adiar – e reescrever – para a semana o texto que começara sobre Diana, decerto mais centrado sobre o que uma cadeia de televisão americana, a CBS, designou por The British Revolution: esses dias em que o luto popular pela bela princesa rebelde abalou não apenas a monarquia britânica, mas toda a herança vitoriana das regras comportamentais e dos ritos sociais no Reino Unido.
Foramos ambos sensíveis, o Eduardo e eu, à catarse que a morte de Diana inesperadamente provocou: a libertação emocional de um povo habituado a dissimular e reprimir a expressão pública da afectividade. Ora, qual será a importância, em tempos prolongados de crise e ressaca das ideologias, da identificação afectiva com as figuras públicas?

Precisamente um dos pontos fortes na minha velha amizade com o Eduardo era a partilha das emoções, dos afectos e do gosto pela vida, mais do que as convergências intelectu- ais. Há meses que já não o via, desde o seu internamento hospitalar e a cirurgia de alto risco a que teve de su- jeitar-se. Mas assim que pudemos falar ao telefone e aprazámos um jantar com amigos comuns, fiquei convencido de que o pior ficara para trás. Infelizmente, enganara-me.
Além de gostar-mos ambos de Diana – e de outras mulheres bonitas a quem perdoávamos as frivolidades mais excêntricas, o que seria motivo de raiva para as feministas radicais –, tínhamos paixões comuns por coisas variadíssimas: pelo cinema, pelos livros (embora ele fosse um leitor incomparavelmente mais voraz e metódico do que eu), pela fotografia e pela arquitectura, pela música brasileira, pelos restaurantes e cafés, mas sobretudo pela observação da vida que passa(va) diante dos nossos olhos, as pequenas surpresas do quotidiano mais trivial, tudo isto ao longo de conversas sem rumo certo, provavelmente inconsequentes mas infinitamente saborosas.
Continuámos a amar Paris mesmo depois de ter sido decretado que se tratava de uma cidade fora de moda – e ali nos encontrámos tantas vezes, quando ele era conselheiro cultural da nossa embaixada em França (sendo justo insistir que nunca houve, que me lembre, quem tivesse desempenhado idêntico papel com igual dinamismo, competência e desinteresse ao que ele demonstrou, sem esperar nenhuma gratidão ou recompensa dos poderes públicos).
Lembro-me das noitadas seguindo os resultados das eleições francesas na sua casa da Rue des Francs Bourgeois, perto da Place des Vosges. E dos jantares no Petit Zinc ou no Vagenande, com o Eduardo Lourenço e a Annie. O Quartier Latin era a nossa pátria comum, o território das nossas afinidades electivas. E sempre me perguntei até que ponto a partida de Paris não fora para ele uma perda verdadeiramente irreparável – ele que, no entanto, tanto gostava de viajar (em particular, para o Brasil) e, ao mesmo tempo, adorava a luz de Lisboa.

Para dois curiosos insaciáveis pela vida, era inevitável que fosse o jornalismo a juntar-nos há mais de trinta anos. E, acerca disso, importa dizer que entre aqueles que é habitual arrumar esquematicamente na classe dos intelectuais e académicos, o Eduardo foi quem mostrou o apetite mais acutilante pela intervenção jornalística. Não houve em Portugal, nas últimas quatro décadas pelo menos, um outro intelectual que tenha revelado uma capacidade tão abrangente de abordar os temas mais diversos e até inusitados. Ele era uma mistura de Barthes e Umberto Eco, sempre atento aos sinais dos tempos e às suas ‘mitologias’.

Como não podia deixar de ser, a sua sobre-exposição pública na imprensa tornou-o vulnerável às críticas e até aos ódios de estimação.
Pessoalmente, confesso que discordei de muitos textos que assinou e não poucas vezes me enervei com a ambiguidade pusilânime de algumas das suas opiniões, a sua tendência conciliadora, o seu receio de ferir susceptibilidades, a sua atracção pela convivência com os príncipes. Mas a verdade é que lhe devo o texto mais generoso e comovente sobre um momento particularmente doloroso da minha vida, quando me demiti da direcção do Público. Ele não me devia nada e já não podia esperar nada de mim, mas escreveu o que outros preferiram silenciar. É também isso que torna desinteressada e genuína a amizade.

Eu, abstencionista, me confesso


Das muito raras vezes em que, por um impedimento qualquer, me abstive de votar, ficou-me sempre um sentimento de desconforto e culpa. Até domingo passado. Ou, para ser mais rigoroso, até à última semana antes das eleições, quando se tornou claro que nenhum candidato merecia o meu voto e que me fartara definitivamente de condescender com o chamado voto táctico (de protesto, pelo menor dos males ou para evitar o pior). Se o meu voto é a minha liberdade, então é tempo de exercê-la sem o mesquinho espírito calculista da contabilidade eleitoral ou o constrangimento de um dever cívico tomado em abstracto. Esse dever existe, é certo, mas não como dogma que me torna refém, em todas as circunstâncias, daquilo que me é oferecido por quem se candidata às eleições.
Desta feita, portanto, abstive-me. E aproveito para acrescentar: dei por mim a desejar que a abstenção fosse maciça. Na minha crónica anterior, chegara a exprimir o receio de que muitos eleitores se sentissem tão pouco motivados como eu para votar. Era um último sobressalto de má-consciência do abstencionista preocupado em que o seu gesto ganhasse uma expressão excessiva (eventualmente perigosa para a democracia, como é costume dizer-se). Ora, por vezes, o acto de não-votar pode ser menos passivo, mais dinâmico e influente, do que o acto de votar. Precisamente porque exprime um sentimento de inconformidade com aquilo que nos é proposto no comércio estrito e exausto do calculismo político.

Afinal, mais de 62 por cento de abstenções, numa eleição para a capital do país, não podem deixar as coisas como estão – e como estão há já demasiado tempo na nossa ‘democracia consolidada’. São um sinal de alarme de alta intensidade, um sinal para acordar e rever tudo de alto a baixo. Quando se fala de terramoto em Lisboa, é preciso começar por falar deste – porque tudo o mais decorre dele, nomeadamente as vitórias e as derrotas (em especial a derrocada da direita) que emergiram da minoria dos 38 por cento dos eleitores que votaram no último domingo.
Mas não foi por acaso que esse sinal, apesar da sua esmagadora visibilidade, começou por ser recalcado pela maioria dos participantes na eleição e respectivos apoiantes. Cada qual fez as suas pequenas contas como se fosse possível escamotear esse imenso pano de fundo dos 62 por cento de abstenção.

Se os dois partidos da direita saem moribundos das urnas de Lisboa, não se pode dizer que os partidos da esquerda – incluindo o vencedor – tenham grandes motivos para festejar os resultados. Todos perderam votos: Costa teve menos 17 mil do que Carrilho e apenas mais 3 por cento de expressão eleitoral, enquanto Ruben e Sá Fernandes ficaram manietados pelas suas dependências (o primeiro pela retórica do seu partido, o segundo pelo seu próprio protagonismo quixotesco e unipessoal).

Vencedores verdadeiros, além da abstenção, foram Carmona Rodrigues e Helena Roseta. Capitalizando o efeito Alegre nas presidenciais e a magia ‘participativa’ de Ségolène Royal em França, Roseta mostrou-se mais mobilizadora do que os seus concorrentes à esquerda, embora a insistência em clichés abstractos e voluntaristas não prenuncie um programa concreto de acção. De explicação menos óbvia é o fenómeno Carmona: depois de ter deixado Lisboa no estado que se sabe e com a sombra da Bragaparques a persegui-lo, o que levou mais de 16 por cento dos eleitores a votarem nele? Porque soube vender a imagem de vítima simpática e injustiçada, num estilo de populismo soft e inofensivo? Ou basicamente porque – tal como Roseta, embora por razões diversas – foi ao encontro de um crescente sentimento de desencanto e divórcio com o sistema partidário?

Desse sistema, quem está por agora mais exposto – em estado verdadeiramente comatoso – são o PSD e o PP. Mas será uma ilusão pensar que tudo se resume a um problema de lideranças, ao regresso falhado de Portas ou à falta de carisma de Marques Mendes. Se não vejo futuro para nenhum deles, não vejo também futuro para esta direita, sejam quais forem os seus protagonistas anunciados. Só que isso não deveria constituir um consolo para Sócrates – deixado sozinho no deserto político português – e reinando sobre um PS também desertificado.