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Bergman e Antonioni

Quer um, quer outro já se tinham despedido definitivamente do cinema e, no entanto, vê-los desaparecer com menos de um dia de intervalo fez-me pensar que, nessa perturbante coincidência (ou, mais exactamente, sequência), foi como se o cinema que mais amei se despedisse com eles, os dois mais queridos cineastas da minha vida.

Foi também como se, com a partida de Bergman, Antonioni sentisse que podia partir também – encerrando ambos simbolicamente o capítulo maior do cinema moderno. Um golpe que se repercutiu no outro, a dor de ver partir uma parte de mim mesmo, essa parte que passara deles para mim ao longo de anos e anos, desde que a minha paixão pelo cinema se tornou quase tão importante, tão decisiva, como a minha paixão pela vida.

Depois de ter escrito, ontem, um texto sobre a morte de Bergman, cumpri a promessa que aí fazia: fui rever o sublime Saraband, e nunca a sua luz sombriamente nua, cristalina, me atravessou assim de alto a baixo, como uma revelação. Intitulara esse texto Ingmar Bergman, nosso pai e enviara-o logo para o jornal sem imaginar que, horas depois, me sentaria frente ao ecrã branco do computador sentindo-me duplamente órfão. A morte de Antonioni ‘desactualizara’ o texto sobre Bergman e, nessa desactualização súbita das palavras, instalou-se o luto por uma paternidade agora duas vezes póstuma.

A verdade é que sentia Bergman mais como ‘nosso pai’ do que Antonioni. Escrevi nesse outro texto que, para toda uma geração, bastava o adjectivo bergmaniano para identificar uma misteriosa proximidade familiar. Nenhum outro cineasta contemporâneo suscitara um reconhecimento tão forte do seu universo e uma comunhão tão intensa com ele por parte de tanta gente que, à partida, lhe seria estrangeira.

De algum modo – escrevia eu – somos todos filhos de Ingmar Bergman, somos todos bergmanianos. Porque bergmaniano pressupunha um nível de intimidade e envolvimento quase religioso num ritual que nos transportava até ao fundo de nós próprios – através de um espelho, sombriamente (expressão que inspirou o título de um dos seus filmes).

Esse espelho eram os rostos dos seus actores filmados em close-up (ninguém os sabia filmar como ele) e no mapa desses rostos desenhavam-se os traços dessa entidade enigmática a que se convencionou chamar alma. Ninguém como Bergman nos soube dar um cinema da alma, um cinema feito alma.

Só que eu confessava também, nesse primeiro texto, que se me perguntassem qual era o realizador de cujo olhar me sentia mais próximo, mais cúmplice, responderia sem hesitação: Antonioni. Logo a seguir, entre parêntesis, acrescentava esta frase: e dói-me saber que ele está também prestes a partir.

Releio essa premonição como se tivesse sido porta-voz de um sinal do destino. E, no entanto, era certo que Antonioni, reduzido há mais de vinte anos a uma cadeira de rodas e tendo perdido a fala, não passava já de uma sombra de si mesmo (confirmou-o no episódio que assinou para o filme Eros).

Mas como esquecer que fora esse mesmo homem que me introduzira no mistério das coisas não ditas, na poesia do silêncio e da suspensão do tempo, no rigor arquitectónico de linhas e espaços onde ele sabia, também como ninguém, enquadrar a solidão e a perplexidade do homem contemporâneo?

O mais perturbante é que estes dois homens, fazendo parte de universos tão distintos, separados por formações e obsessões tão opostas, formavam uma espécie de díptico perfeito do cinema moderno. Bergman era um religioso revoltado pela ausência de Deus entre os homens e Antonioni um laico radical que perseguia a estranheza dos homens perante si mesmos e o mundo em que viviam.

A intemporalidade de Bergman ultrapassava as circunstâncias sociais e históricas, mesmo quando elas condicionavam o comportamento das suas personagens. Já a temporalidade de Antonioni partia sempre de uma observação desses comportamentos num quadro social muito concreto, até chegar à abstracção (dos sentimentos ou da própria realidade). Cada qual a seu modo, eram, por isso, metafísicos.

Não creio que haja filmes mais modernos do que Persona, de Bergman, ou O Eclipse, de Antonioni. Nunca se mergulhou tão fundo nos abismos da identidade humana como em Persona. E nunca se foi tão longe na descrição de um mundo rarefeito pela alienação da vida contemporânea (e, concretamente, do dinheiro) como em O Eclipse. Mas Persona remete-nos, por exemplo, para A Paixão, O Silêncio, Luz de Inverno, Lágrimas e Suspiros, Saraband, entre outros. Como O Eclipse nos transporta para A Aventura, A Noite, O Deserto Vermelho, Blow Up, Profissão Repórter, Identificação de uma Mulher

Só que nem Bergman nem Antonioni se limitaram a essas rimas mais evidentes das suas obsessões. Entre os filmes bergmanianos da minha vida estão Mónica e o Desejo, Um Verão de Amor, Sorrisos de Uma Noite de Verão, Morangos Silvestres (haverá filme mais belo sobre a velhice?) ou Fanny e Alexandre (haverá filme mais belo sobre a infância?). E de Antonioni guardaria, na mesma arca do tesouro, Crónica de Um Amor, As Amigas, O Grito ou o tão incompreendido quão visionário e deslumbrante O Mistério de Oberwald.

Para despedir-me de Bergman, comecei por rever Saraband. Agora, vou começar por despedir-me de Antonioni revendo o filme que dele mais vezes vi: O Eclipse. E faltam todos os outros a que regressarei na minha orfandade comovida, depois destes dois dias em que o destino juntou na morte os dois maiores homens vivos do cinema. Malhas que o cinema tece…